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O futuro da agricultura? Plantar no mar.

O futuro da agricultura? Plantar no mar.

Especialistas preveem que a produção agrícola deverá crescer 60% ao longo dos próximos 30 anos para alimentar uma população global de nove bilhões de pessoas.

É uma perspectiva aterradora. O crescimento populacional apenas intensificará a competição entre a agricultura e outros usos para a terra e a água doce. Além disso, os impactos das mudanças climáticas na temperatura, na precipitação e na produtividade agrícola possivelmente diminuirão a segurança alimentar, especialmente em lugares como Ásia e África.

Mas e se parte de nossa produção agrícola mudasse de lugar? E se as operações não fossem apenas ambientalmente sustentáveis, mas também pudessem ajudar a mitigar as mudanças climáticas? Inovadores em vários países, incluindo EUA, Noruega e Itália, estão trabalhando para que isso se torne realidade.

Gostaria de estar no fundo do mar.

Um deles é Bren Smith, proprietário da
Thimble Island Ocean Farms, um pedaço de mar de três acres na costa de Stony Creek, no estado de Connecticut, nos EUA. Ali, Smith foi um dos primeiros a desenvolver a "agricultura oceânica tridimensional restaurativa", que aproveita toda a coluna de água. Trata-se de uma abordagem simples, mas elegante, para a produção de alimentos enquanto se mitigam as mudanças climáticas e se promove o desenvolvimento econômico.

A operação consiste em uma série de linhas presas a boias na superfície. O principal produto agrícola são as algas, ou kelp, como também são conhecidas. Thimble Island cultiva dois tipos, em linhas que descem a partir da superfície. Intercaladas com as linhas de kelp estão redes para vieiras e cordas para a criação de mexilhões. No fundo do oceano são usadas gaiolas para cultivar ostras.

Smith passou os últimos 15 anos aperfeiçoando a agricultura oceânica tridimensional, e os resultados são impressionantes. "Podemos cultivar quantidades inacreditáveis de alimentos em áreas pequenas: 25 toneladas de algas e 250 mil mariscos por acre em cinco meses", diz Smith.

Kelp é uma planta notável e cheia de virtudes. Ela se desenvolve muito rápido; na operação de Smith, a kelp chega a 10 pés (três metros) em um único inverno. Um acre de kelp rende mais ou menos o mesmo volume de alimento que um acre de batatas, no entanto, as algas são muito mais nutritivas; elas têm mais proteínas e ferro do que a carne vermelha e mais cálcio do que o leite. Além disso, é rica em
Vitamina B12, iodo e ômega 3.

Não há necessidade de fertilizantes químicos, já que a alga absorve dióxido de carbono, fósforo e nitrogênio diretamente do mar. Na verdade, a kelp absorve cinco vezes mais carbono do que plantas terrestres. Além disso, é resistente; se uma tempestade destruir a plantação, será possível iniciar uma nova plantação em pouco tempo.

Os benefícios não param por aí. A kelp pode produzir 30 vezes mais biocombustível em comparação com a soja e cinco vezes mais do que o milho. Além disso, uma pesquisa recente na Austrália descobriu que adicionar apenas 2% de um tipo específico de alga desidratada ao alimento de ovinos e bovinos reduziu a emissão de metano em mais de 70%.

Isto pode ser importante. A FAO (Organização para Alimentação e Agricultura, na sigla e inglês) da ONU
estima que a pecuária emita "7,1 gigatoneladas de equivalentes de CO2 por ano, representando 14,5% de toda a emissão antropogênica de gases do efeito estufa". Assim, reduzir mesmo uma pequena porção do metano gerado pelo gado poderia levar a um declínio notável nos gases do efeito estufa.

Em 2014, Smith fundou uma organização sem fins lucrativos, a
GreenWave, cujo objetivo é replicar o modelo da agricultura oceânica tridimensional nos EUA e no mundo todo. A GreenWave oferece aos futuros fazendeiros subsídios, sementes de baixo custo, equipamento externo gratuito e dois anos de treinamento. Ela também se compromete a comprar 80% das colheitas por cinco anos a três vezes o preço de mercado. De acordo com Smith, "qualquer pessoa com 20 acres, um barco e US$30.000 pode começar uma fazenda e estar funcionando plenamente em um ano".

Além de recrutar e treinar fazendeiros, a GreenWave está trabalhando com chefs de cozinha para criar novas receitas que incluam algas. Um restaurante de Nova York, por exemplo, lançou um prato que consiste em macarrão de kelp com cenouras assadas ao molho barbecue com croutons e limão. Os críticos adoraram. A empresa também está se unindo a fabricantes para produzir novos produtos alimentícios e com varejistas para expandir o mercado dos produtos à base de kelp.

Em 2015, a GreenWave ganhou o
Desafio Fuller. Entregue anualmente pelo Buckminster Fuller Institute, o prêmio de 100 mil dólares é "oferecido em apoio ao desenvolvimento e implementação de uma estratégia notável" para lidar com "alguns dos mais urgentes problemas da humanidade".

Uma experiência parecida pode ser encontrada na costa da Noruega. A Ocean Forest é uma parceria entre a principal exportadora de frutos do mar norueguesa e uma grande organização de preservação ambiental. Assim como a GreenWave, ela planeja criar fazendas oceânicas integradas que cultivem kelp, marisco e peixes para a alimentação de pessoas e animais, fins médicos, biocombustíveis e fertilizantes. A Ocean Forest também busca se apoiar na especialização científica pioneira da Noruega na área de aquicultura, além da relação comercial bem estabelecida da indústria com atacadistas e distribuidores de todo o mundo.

Em um jardim de polvos com você

Outra abordagem inovadora em agricultura marítima está ocorrendo em uma pequena baía do norte da Itália. Ali, estufas submarinas são usadas para cultivar mais de 15 espécies, incluindo manjericão, alface e rabanetes.

Com o nome adequado de
Nemo’s Garden, as plantas são cultivadas hidroponicamente em soluções de nutrientes minerais que não exigem solo. As biosferas submarinas da iniciativa oferecem temperaturas quase constantes e umidade abundante a partir da condensação natural; são as condições ideais para produzir alimentos sem fertilizantes sintéticos ou pesticidas, sem a necessidade de água doce ou aquecimento.

Embora os princípios básicos sejam bem entendidos – isto é, trata-se basicamente de terrários colocados no oceano –, vários anos de tentativa e erro foram o que permitiu que os operadores do jardim ajustassem seu modelo. Em especial, as primeiras biosferas tendiam a colapsar sob a alta pressão da água ou ser destruídas em tempestades. Hoje, a equipe usa estruturas acrílicas rígidas equipadas com vários sensores que monitoram a operação. Eles também aprenderam quais substratos funcionam melhor para cultivar diferentes tipos de vegetais nestes ambientes marinhos.

Curiosamente, as plantações no Nemo's Garden crescem quase duas vezes mais rápido do que em terra firme, embora haja menos luz solar. As razões para isso ainda não são claras, mas a equipe especula que as temperaturas mais altas, a umidade e o dióxido de carbono dentro das esferas têm um impacto benéfico sobre o desenvolvimento das plantas.

Os efeitos no ambiente submarino adjacente também são positivos. Os mergulhadores que cuidam das plantações relatam um aumento da vida marinha ao redor das biosferas, incluindo polvos e cavalos-marinhos ameaçados de extinção.

Agora, a equipe planeja criar operações com estufas dimensionáveis que possam ser usadas para a produção comercial de alimentos. Para esta nova fase, eles estão buscando ilhas e regiões costeiras com uma quantidade restrita de água doce ou terra arável, a fim de comercializar e aperfeiçoar seus métodos.

Hoje, cerca de 98% de toda a nossa comida é cultivada em terra firme, e apenas 2% vem dos mares. Os esforços pioneiros da GreenWave, da Ocean Forest e do Nemo's Garden e outros, mostram como as fazendas submarinas poderiam mudar esses números. E, no processo, aumentar a segurança alimentar, reduzir a emissão de gases do efeito estufa e estabelecer novas fontes de energia renovável.

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